terça-feira, 16 de junho de 2020

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Rincão do Soturno




























































Dezenove de novembro de 2017, um domingo. Estamos a apenas sete quilômetros do centro de Santa Maria, mas o cenário é totalmente rural. A Cancha do Honório fica na beira da estrada de terra, que não é uma estrada, mas uma rua: Rua Cecília Silveira. Chego às nove horas e, afora os churrasqueiros e as cozinheiras, sou um dos primeiros. Aos poucos vêm os outros, vamos conversando, vou descobrindo quem são: todos moram ou nasceram nos arredores, todos se conhecem desde sempre, sabem as histórias uns dos outros, a maioria tem laços de sangue, jogam ou entendem ou no mínimo apreciam a bocha. Na verdade, o jogo mesmo só começa depois do almoço – do inesquecível costelão, diga-se; antes, são o baralho, a sinuca, as conversas, os aperitivos, muita cerveja, crianças correndo, cães e gatos. Ouço, entre tantas outras histórias, a da Cecília Silveira, que dá nome à rua: viúva, era leiteira, produzia e comprava ali no Rincão do Soturno e no Campestre e vendia no Itararé, ia numa carroça puxada por um cavalo velho, manso, paciente, que sabia o caminho de volta para casa e assim o percorria no seu passo velho, manso, paciente, enquanto a dona cochilava com o chapéu de palha protegendo o rosto do sol. A bocha é o ponto alto, naturalmente. Envolve todo mundo. Jogam homens e mulheres de todas as idades; só não jogam as crianças, que ficam em volta assistindo e torcendo. Bocha de raiz: chão batido, esportistas de chinelo de dedo, esportistas fumando e tomando cerveja, alguns bem barrigudos, tudo muito sério e ao mesmo tempo festivo. E tudo se somando a revelar que aquelas pessoas não estão ali apenas pelo esporte: muito aquém, são parentes, amigos e vizinhos que se reúnem para celebrar a família, a amizade, a boa vizinhança, que se reúnem e comem, bebem e riem para celebrar simplesmente a vida.